Identifique e Corrija Deficiências Nutricionais: Um Passo A Passo - Agricultura do Futuro

Hoje, vamos aprender como identificar se os sintomas apresentados por nossas lavouras se tratam mesmo de deficiência nutricional e, em caso positivo, qual nutriente possivelmente está em falta.

Como a nutrição mineral é o pilar de qualquer sistema produtivo, produtores experientes contam sempre com Engenheiros Agrônomos, utilizam fertilizantes de alta qualidade e fazem análises periódicas de solo e folha.

Porém, muitas vezes, um profissional pode não estar disponível, sendo necessário que gerentes e produtores se treinem na identificação desses problemas.

Quando um sintoma de deficiência aparece, é preciso agir rápido, pois se trata do estágio final de uma série de mudanças dentro da planta que, se não revertidas a tempo, podem comprometer drasticamente a qualidade final do produto e o lucro da atividade.

Façamos o seguinte exercício de imaginação.

Um certo dia ao acordar cedo e se dirigir à lavoura você percebe uma série de sintomas visuais que indicam que há algo muito errado.

O que fazer?

Bem, se faça algumas perguntas e, com base na análise visual das folhas, é possível chegar a algumas respostas que permitirão a elaboração de um plano de ação de curto prazo.

1ª PERGUNTA:
ISSO É MESMO UM SINTOMA DE DEFICIÊNCIA NUTRICIONAL?

Sintomas de falta de nutrientes podem se assemelhar com outros problemas comuns nos cultivos, como ataques de pragas e doenças, queimaduras de sol, danos causados por geadas e vento, fitotoxidez, etc.

Por isso, a primeira coisa a ser feita é descartar a possibilidade de outros problemas terem ocorrido.

A) Inicialmente, observe se o sintoma é GENERALIZADO na maioria das plantas. Se os sintomas tiverem padrão de “reboleira”, ou seja, acontecerem em pontos diferentes e isolados dentro da área de cultivo, possivelmente se trata de ataques de inseto, problemas localizados com a pulverização, dentre outros.

B) A segunda coisa a observar é se existe SIMETRIA, ou seja, se os sintomas ocorrem de maneira muito parecida entre os lados direito e esquerdo das nervuras e, também, entre as faces superior e inferior das folhas. Enquanto geadas, por exemplo, tendem a ferir as folhas em pontos aleatórios, a falta de um nutriente específico tende a exteriorizar sintomas de maneira simétrica (Figura 1).

C) Finalmente, observe se existe GRADIENTE, ou seja, se os sintomas se concentram nas folhas mais jovens (novas) ou nas mais velhas (maduras). Isso acontece porque alguns elementos que se movem facilmente dentro das plantas tendem a ser “roubados” das folhas mais velhas para usos mais urgentes. Outros, porém, não se movem com a mesma facilidade e acabam não chegando nas partes novas onde as folhas jovens e os ponteiros ainda estão em formação (Figura 2).

O acompanhamento em tempo real da fazenda é fundamental para identificar condições meteorológicas causadoras de problemas que podem ser confundidos com deficiências.  

Felizmente, esse acompanhamento é acessível hoje, pois algumas empresas prestam serviços de monitoramento com altíssima qualidade.

Algumas plataformas da agricultura de precisão são capazes de dar informações precisas sobre chuvas, geadas, ventos e estiagens a nível de talhão.

2ª PERGUNTA: QUAL O SINTOMA DOMINANTE?

O segundo passo é tentar entender quais possíveis nutrientes não foram eficazmente supridos. Para isso, saiba que existem duas grandes possibilidades visuais para o sintoma dominante:

A) O sintoma dominante É clorose; e B) O sintoma dominante NÃO É clorose. Vamos explorar cada possibilidade separadamente:

A) O sintoma dominante É clorose – Nesse caso, a sua lavoura está sofrendo com a falta de um dos seguintes elementos: nitrogênio (N), magnésio (Mg), enxofre (S), manganês (Mn), ferro (Fe), cobre (Cu) e zinco (Zn). Para filtrar ainda mais as possibilidades, pergunte-se: A clorose é dominante nas folhas jovens (novas) ou nas folhas velhas (maduras)? Caso seja nas folhas mais velhas, estamos diante de deficiência de N ou Mg. Caso seja nas folhas jovens estamos diante de uma deficiência de S, Fe, Mn, Cu ou Zn.

Cabe agora diferenciar N x Mg (Figura 3)! A descoloração por falta de N começa nas pontas em direção à base e, muitas vezes, tem forma de “V”. A falta de Mg provoca clorose internerval e lesões estriadas.

Como diferenciar S, Mn, Fe, Cu ou Zn (Figura 4)? Bem, a deficiência de S é muito parecida com a de N e a de Mn muito parecida com a de Mg, só que, como visto acima, as deficiências S e Mn ocorrem nas folhas mais jovens.

A deficiência de Fe produz uma clorose completa, de ponta a ponta da folha.

A falta de Cu deixa a parte basal da folha uniformemente amarelo-esverdeada e, também, provoca uma descoloração amarelada entra as nervuras.

Por fim, a falta de Zn provoca o aparecimento de zonas cloróticas paralelas à nervura, da base para a ponta, de forma que as pontas e as nervuras foliares continuam verdes.

Embora todas essas deficiências se caracterizem por descoloração das folhas novas, como observado para os citros, a falta de manganês – Mn (imagem A) provoca perda de brilho e clorose internerval, baixos níveis de zinco – Zn (imagem B) causam uma clorosa internerval com nervuras muito verdes, baixo suprimento de cobre – Cu (imagem C)  resulta em clorose amarelo-esverdeada na base das folhas, falta de ferro – Fe clorosa as folhas de ponta a ponta e, finalmente, a deficiência de enxofre – S resulta em clorose e amarelecimento completo das folhas (inclusive das nervuras)

B) O sintoma dominante NÃO É clorose – Nesse caso, podemos estar diante de falta de fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca) e zinco (B). Perguntemos: Eu vejo esse sintoma nas folhas jovens ou nas folhas velhas? Caso seja nas folhas mais velhas, estamos diante de deficiência de P ou K. Caso seja nas folhas jovens, estamos diante de uma deficiência de Ca ou B.

Para diferenciar P e K (Figura 5) devemos lembrar que a falta de P deixa as margens e nervuras das folhas e os caules arroxeados, enquanto a falta de K faz as pontas e as margens foliares secarem.

Figura 5: Deficiência de fósforo – P provoca necrose da ponta para o centro das folhas (imagem A) da bananeira e arroxeamento das folhas (imagem C) do tomateiro, enquanto a deficiência de potássio – K clorosa e necrosa as margens foliares nas duas culturas (imagens B e D)

Por fim, precisamos saber diferenciar as deficiências de Ca e B (Figura 6).

A deficiência de Ca provoca o surgimento de pontos verdes ou esbranquiçados ao longo da folha, ou ainda, lesões intercaladas em folhas arqueadas para trás.

Por conta da deficiência de B, porém, aparecem listras marrons nas folhas e estas se tornam bronzeadas e morrem.

Deficiência de cálcio – Ca, na imagem A, provoca branqueamento, necrosa escura pontual e enrolamento das folhas na cana-de-açucar; a falta de boro – B, na imagem B, porém, causa manchas estriadas nas folhas e morte da gema terminal na mesma cultura

Depois de identificar, com certa margem de segurança, o nutriente faltoso, é hora de observar os fertilizantes disponíveis e aplicá-los o mais rápido possível.

A melhor opção para correção imediata das deficiências é a adubação foliar, que ainda possui um benefício adicional: os fertilizantes foliares normalmente apresentam uma recomendação de dose no rótulo para cada cultura, de forma que, ao invés de “quebrar a cabeça” para pensar em uma, basta seguir as informações do fabricante.

Em seguida, deve-se buscar um Engenheiro Agrônomo para apreciação do problema e, se possível, fazer amostragem de folhas para que uma análise foliar esclareça a situação de cada elemento na sua cultura.

Caso o acesso a um profissional, por qualquer motivo, precise esperar por alguns dias, é recomendável reforçar a disponibilidade dos nutrientes em falta através da fertirrigação.

As deficiências nutricionais precisam ser rapidamente identificadas em muitas situações práticas do dia a dia e, para isso, produtores e técnicos precisam se treinar a perceber a diferença entre sintomas de deficiências e outros problemas, como ataques de pragas e ferimentos de geadas.

Com base nos sintomas dominantes e nas folhas atingidas (folhas maduras ou folhas jovens) é possível inferir qual nutriente precisa ser urgentemente suprido para que isso não comprometida a lucratividade da atividade agrícola.

Assim, absorver e aplicar, na prática, as informações aqui apresentadas, além de buscar mais informações em outras fontes confiáveis, são atitudes fundamentais para aqueles que querem ser capazes de “conversar” com as folhas de suas lavouras e entender o que elas estão “pedindo” para “o jantar”.

Dúvidas?

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Até!

Aline Sandim

Doutorado em Agronomia (Pós-Graduação em Agricultura, Relações água/solo/planta), UNESP - Faculdade de Ciências Agronômicas, Botucatu - SP, conclusão em 2016. Mestrado em Agronomia (Pós-Graduação em Agricultura, Relações água/solo/planta), UNESP - Faculdade de Ciências Agronômicas, Botucatu - SP, conclusão em 2012. Graduação em Agronomia, Universidade Católica Dom Bosco, UCDB, conclusão em 2009.

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